FASCINAÇÃO

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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

ALMA PERDIDA


Florbela Espanca

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!


Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
De alguém que quis amar e nunca amou!


Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!


Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

AOS MEUS AMIGOS


Poema de Jorge Vicente - Sintra , PT


disseram-me que, de manhã,

se ouve o Tejo todo,


e que as pessoas transportam em


si aquela imensidade vasta,


como quem é feito de História


e não sabe porquê



disseram-me que o tempo não


volta ao lugar onde nasceu, e


que os amigos que se perdem são


como o areal à volta da minha casa:


os retalhos, as migalhas, a presença


sempre ausente das águas em


combustão



e a sensação de que sempre foi assim,


com aquelas mesmas pessoas,


com aqueles mesmos rostos


por dentro da História


e com o Tejo debaixo dos braços.


Do livro - Ascensão do Fogo

Créditos de imagem- Alastair Magnaldo

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

ÀS TONTAS

LUÍZ MARTINS



Tanta coisa vã no mundo,

Tanto mundo nas escuras.

Tanta coisa vai ao fundo,

Tanta alma na rasura.



De tonto viver às tantas,

Tento-me esguio no feito,

De tão gordas são as contas,

Lívida, a vida no seu jeito.



Livrara-me de tanta carga,

No encargo do todo dia,

Mal o azinhavre se larga,

No de escrever algaravia.


Só a tonteira é o incômodo,

Viver bêbedo sem bebida,

Paixão, fermento sem bafo,

Trôpego, mas cheio de vida.


( créditos de imagem - http://www.coluna-da-sal.com/nop/principal.htm )

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

NASCER DE NOVO


Diz o evangelho de João que é necessário nascer de novo.
É a transmutação da água na evolução interior de cada um.
Em todos nós existe uma centelha divina, somos carne e divindade.
No exercício diário da reforma íntima faz-se necessário que a centelha do Cristo em nós, saia dos textos lidos e esteja presente em nossa rotina.
No trato com os familiares, no trânsito, no ambiente de trabalho, no Bom-Dia ao vizinho. Nenhuma razão maior de estarmos todos juntos no mesmo planeta, há, se não for para aprendermos a amar o nosso semelhante.
O Amor incondicional que nos falou Jesus é o exercício diário de ser Cristão.
Se estamos juntos neste Orbe terrestre é porque ainda estamos no mesmo nível evolutivo ou seríamos Arcanjos e povoaríamos as estrelas.
A cada um é dado a grande tarefa do aprendizado.
Todos os dias nos dá o Criador mais vinte e quatro horas de crédito para recomeçarmos.
É necessário o balanço antes do sono dos atos do dia: se ofendemos, se criticamos, se não fomos soldados da solidariedade.
Que os dias nos sejam de reflexão e crescimento.
Que possamos renascer todos os dias.
L.A

Domingo, 7 de Junho de 2009

PONTE SOBRE ALMODOVAR

“Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da casa. Foto em preto e branco sem foco, feito neblina de inverno."- “Entre a luz e a sombra.”
Apertou com força o botão do elevador. Décimo quinto andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz. No centro da Rosa dos Ventos, em asana sobre a montanha , equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix . As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores espalhando-se pela casa.
Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico uma mulher costurava. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos da mulher num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante a mulher deitou ao lado a costura e levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.
A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia :

_ Você, por favor, pegue os meninos e desça!
A mulher sorriu calmamente:
_ O vento? Não se preocupe, é pouco.
Deu alguns passos até as portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las.
A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.
Sobre a rosa dos ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Da parede nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia.
Iniciou-se A Grande Fuga - Ludwig Van Beethoven.
L.A

Domingo, 31 de Maio de 2009

OPUS 69 nº2



Frederic Chopin um homem além da música. Um pintor, um poeta, um espaço entre as teclas do piano. Frederic fala-nos com suavidade como a brisa que balança a cortina da janela aberta à imensa claridade, ao vento. Por certo que as folhas receberão seu rítimo, e com elas dançarão a valsa da hipsnose que liberta. Sua melancolia se aliará às cores das flores e frutos. Poesia, sonoridade e cor. As notas transbordam a taça de vidro sobre o velho piano e ilumina-se a sala. As cores transbordam a janela de vidro e iluminam a sala. A poesia atravessa os dedos sobre as teclas , salta a escada iluminando a sala.
Os homens e seus chapéus chegam à porta. As damas portam lenços entre os dedos e suaves flores no cabelo. As rendas varrem o tapete da grande sala. A mulher atravessa e sorri. Para ele o salão está vazio, não vê o homem ao lado da mulher, apenas o olhar em voluntário abismo. A mulher é presa à rede lançada ao mar. Nâo percebe a teia a sua volta, nem que o cardume assume nova direção. A mulher ouve a música e procura. Já não ouve apenas a música, entre os acordes está o apito inaudível. Só os cães farejam sons em noites silenciosas. Homens e seus sapatos escuros povoam o chão da grande sala.
Sente o perfume das hortências ao vento.

L.A

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009


É o sonho que nos faz ver jardins em pacotes de sementes.
L.A